O US Open de 1968 marcou um momento histórico para o tênis. Foi a primeira edição “Open” do torneio, onde profissionais e amadores puderam competir juntos. Antes disso, o torneio, conhecido como U.S. Nationals, era exclusivo para tenistas amadores. Quem levou o título naquela estreia da chamada “Era Aberta” foi Arthur Ashe, um dos maiores nomes do esporte, mas a grande curiosidade é que o vice-campeão, muito menos conhecido, foi o holandês Tom Okker, apelidado de “O Holandês Voador”.
A final daquele ano foi eletrizante: Ashe e Okker duelaram por cinco sets intensos, com placar final de 14-12, 5-7, 6-3, 3-6 e 6-3 para Ashe. Na época, Ashe ainda era amador e, por isso, quem recebeu o cheque de $14.000 dólares referente ao prêmio principal foi Okker, considerado jogador “registrado”, uma categoria que permitia ao amador receber dinheiro em alguns torneios.
Tom Okker é judai e figura no livro “The Greatest Jewish Tennis Players of All Time” (Os Maiores Jogadores Judaicos de Tênis de Todos os Tempos), de Sandy Harwitt. Sua história vai muito além daquela final histórica. Okker nasceu em 1944, na Holanda, país que vivia sob ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Após o conflito, a reconstrução foi lenta e só aos 10 anos ele foi apresentado ao tênis, esporte no qual viria a colecionar conquistas internacionais.
No auge da carreira, Okker venceu 31 títulos de simples, chegando a ocupar o 3º lugar no ranking mundial em março de 1974. Além disso, alcançou semifinais nos outros Grand Slams e ficou em 24º lugar entre os maiores vencedores da Era Aberta até 2014. Ele também brilhou nas duplas, chegando ao 1º lugar do ranking oficial da ATP em 1979, com 78 títulos acumulados, incluindo dois Grand Slams (Aberto da França 1973 ao lado de John Newcombe e US Open 1976 com Marty Riessen).
Uma passagem curiosa na carreira de Okker aconteceu logo cedo, nos primeiros meses de seu caminho no tênis profissional. Um editor do Tennis Week, revista especializada do tênis, relembra uma viagem inesperada com Okker de volta a Nova York após um torneio em Filadélfia. Em vez de pegar o tradicional trem Amtrak, Okker convidou o editor para voar com ele. O avião não era um jato moderno, mas um pequeno aparelho com hélices, parecido com aeronaves da Segunda Guerra Mundial.
Durante o voo, Okker mostrou seu amuleto da sorte, um colar com pingentes que combinavam símbolos judaicos e cristãos, explicando que seu pai era judeu e sua mãe não, e que ele buscava sorte em todas as fontes. Ele também contou ter participado dos Jogos Macabeus em Israel, conquistando títulos em simples e duplas mistas em 1965.
Após aposentar a raquete em 1981, Okker migrou para o mundo da arte, tornando-se corretor e galerista. Ele fundou a Jaski Art Gallery em Amsterdã, e em 2005 abriu a Tom Okker Art em Hazerswoude-Dorp, cidade próxima à capital holandesa. Sua galeria é dedicada ao movimento CoBrA, um importante grupo de artistas expressionistas abstratos da Europa.
Em reconhecimento à sua carreira e herança, Okker foi introduzido no International Jewish Sports Hall of Fame em 2003.
Tom Okker fica para a história não só como um grande nome do tênis mundial, mas também como um personagem que une esporte, cultura e superação, sendo uma verdadeira lenda muitas vezes esquecida na grande narrativa do tênis.
Fonte: World Tennis Magazine