O saibro de Paris foi palco de um dos capítulos mais emocionantes do tênis brasileiro no século XXI. Entre os dias 25 de maio e 7 de junho de 2026, Roland Garros testemunhou a ascensão de João Fonseca, um carioca de 19 anos que eliminou Novak Djokovic, parou nas quartas de final e liderou a melhor campanha brasileira da história em um Grand Slam — 37 vitórias no total, distribuídas entre simples, duplas e juvenil.

A virada do século contra Novak Djokovic

Na tarde de 29 de maio de 2026, a quadra Philippe-Chatrier recebeu um duelo que entrou para a história. Pela terceira rodada, João Fonseca enfrentava Novak Djokovic, dono de 24 títulos de Grand Slam, tricampeão em Paris e considerado por muitos o maior tenista de todos os tempos.

O começo foi arrasador para o sérvio. Djokovic impôs seu ritmo desde o primeiro game, quebrando o saque de Fonseca e aproveitando a tensão natural do brasileiro em sua estreia na quadra central. Com consistência do fundo de quadra e variações precisas, Djokovic venceu os dois primeiros sets por 6/4 e 6/4.

Foi quando a história virou. No terceiro set, Fonseca começou mais solto. Conseguiu a quebra no segundo game explorando uma dupla falta de Djokovic e abriu 2/0. A direita do brasileiro passou a ditar o ritmo, e ele fechou o set em 6/3. No quarto set, o equilíbrio foi total. Djokovic chegou a sacar para fechar a partida em 5/4, mas Fonseca devolveu a quebra sob o coro da torcida: "Olé, olé, olé, João". O brasileiro fechou em 7/5 e levou a partida para o quinto set.

No set decisivo, Djokovic abriu 4/3 e teve muito apoio da torcida, mas os golpes certeiros de Fonseca igualaram o placar em 5/5. Na sequência, o brasileiro quebrou o serviço do sérvio e fechou em 7/5, após 4 horas e 53 minutos de batalha.

"Foi um prazer entrar em quadra contra ele, só isso já foi incrível. O Djokovic não perde uma, parece que ainda tem 20 anos. É tudo uma loucura. Quando o sol caiu, me senti melhor e consegui vencer", disse Fonseca ainda em quadra, emocionado. Antes de sair, homenageou a mãe, que comemorava aniversário naquele dia.

De Ruud a Mensik: a campanha até as quartas de final

Dois dias depois, Fonseca voltou à quadra para enfrentar Casper Ruud, duas vezes finalista de Roland Garros. O brasileiro venceu o norueguês em mais uma atuação sólida, mostrando que a vitória sobre Djokovic não havia sido acaso. "Foi uma batalha para ver quem era o mais agressivo", resumiu Fonseca após a partida.

Nas quartas de final, o brasileiro encontrou Jakub Mensik, da Tchéquia. Após uma luta intensa, Fonseca foi eliminado, mas saiu de cabeça erguida. "Dei tudo o que tinha. Foi um caminho muito bom. Duas semanas muito positivas, de muito trabalho duro e aprendizado. Eu não tinha expectativa e consegui um ótimo resultado", avaliou.

A campanha de Fonseca foi o melhor resultado de um brasileiro em Roland Garros desde Gustavo Kuerten, que venceu o torneio em 1997, 2000 e 2001. O tricampeão, inclusive, esteve presente em Paris para acompanhar e apoiar a nova promessa.

A melhor campanha brasileira em Grand Slams

João Fonseca foi o grande nome, mas o desempenho coletivo do Brasil em Roland Garros 2026 entrou para os livros de história. O país somou 37 vitórias na edição — superando com folga as 26 conquistadas no US Open de 2014 — distribuídas entre simples, duplas, juvenil e cadeirantes.

Nas duplas femininas, Luisa Stefani chegou às semifinais ao lado da canadense Gabriela Dabrowski, caindo diante da dupla formada por Katerina Siniakova e Taylor Townsend. "Uma semifinal é sempre uma boa campanha, mas, conforme o torneio vai afunilando, o desafio fica cada vez maior", analisou Stefani após a partida.

No masculino, Marcelo Demoliner, aos 37 anos, avançou até as quartas de final ao lado do indiano N. Sriram Balaji. "Feliz com a participação inédita nas quartas, que vai dar uma confiança boa para o decorrer da temporada", disse o gaúcho, que já projetava a temporada de grama.

No simples feminino, Beatriz Haddad Maia foi eliminada na primeira rodada pela britânica Francesca Jones, de virada.

Luis Guto Miguel: o futuro já chegou

Se João Fonseca representou o presente do tênis brasileiro, Luis Guto Miguel personificou o futuro. O goiano de 17 anos conquistou o título juvenil de Roland Garros ao derrotar o americano Michael Antonius por 6/3 e 6/4 — o primeiro brasileiro a erguer o troféu juvenil em Paris.

Luis Guto começou a jogar em Goiânia e mudou-se para Brasília aos 14 anos para investir na carreira. Sob a orientação dos treinadores Santos Dumont, no Brasil, e Kike Granjero, que acompanhou a final de perto, o jovem desenvolveu um jogo que seus técnicos comparam ao de Carlos Alcaraz.

"Estou muito feliz, aproveitando o momento, mas mantendo a humildade, porque temos muito a fazer", afirmou após a conquista. "Seria um sonho voltar aqui no ano que vem jogando como profissional. Trabalho duro é a chave do processo."

Com o título, Luis Guto tornou-se número 1 do ranking mundial juvenil e garantiu a 37ª vitória brasileira na campanha histórica em Paris.

O que Roland Garros 2026 significa para o tênis brasileiro

A edição de 2026 do Grand Slam parisiense recolocou o Brasil em evidência no cenário internacional. Pela primeira vez em décadas, o país teve um protagonista nas fases finais de um Grand Slam, um campeão juvenil e uma presença maciça em todas as categorias.

Nas arquibancadas, a torcida brasileira marcou presença como nunca antes vista. "Nunca vi tanto brasileiro em Roland Garros. Depois do Gustavo Kuerten, agora estamos vendo muito mais brasileiros e espero que continue assim", disse o administrador Cristiano França, que acompanhou o torneio de perto.

O engenheiro Carlos Frazão resumiu o sentimento geral: "Muita gente boa nova surgindo no tênis. O João Fonseca ajudou muito essa nova geração a aparecer."

Com a temporada de grama já em andamento e Wimbledon no horizonte (de 29 de junho a 12 de julho), João Fonseca e a nova geração do tênis brasileiro têm motivos de sobra para acreditar que o melhor ainda está por vir.