Pela primeira vez desde 1977, Roland Garros terá uma final feminina com duas estreantes em decisões de Grand Slam. A russa Mirra Andreeva, de 19 anos, e a polonesa Maja Chwalińska, de 24, disputam neste sábado (6) o título mais imprevisível dos últimos anos em Paris. De um lado, uma das maiores promessas do tênis mundial, que já venceu dois WTA 1000 e busca coroar sua trajetória com um major. Do outro, uma qualifier que entrou na chave como nº 114 do mundo, não tinha dinheiro para pagar o hotel e agora é a finalista de menor ranking da história do torneio.
O caminho de Mirra Andreeva até a final
Mirra Andreeva nasceu em Krasnoyarsk, na Sibéria, em 29 de abril de 2007, e começou a jogar tênis aos seis anos. Desde cedo, mostrou que não era uma jogadora comum. Aos 15 anos, já era número 1 do mundo no ranking juvenil. Em 2023, chegou à quarta rodada de Wimbledon com apenas 16 anos. Em 2024, surpreendeu o mundo ao derrotar Aryna Sabalenka nas quartas de final de Roland Garros e alcançar as semifinais — perdendo para Jasmine Paolini.
Em 2025, Andreeva deu o salto definitivo. Venceu o WTA 1000 de Dubai, derrotando Clara Tauson na final, e em seguida conquistou Indian Wells ao bater a própria Sabalenka em três sets. Aos 17 anos, tornou-se a mais jovem campeã de um WTA 1000 na história. Em julho, atingiu o top 5 do ranking mundial — a mais jovem desde Maria Sharapova.
Neste Roland Garros, Andreeva chegou como cabeça de chave nº 8 e número 7 do mundo. Passou por Fiona Ferro, Marina Bassols Ribera, Marie Bouzková, Jil Teichmann e Sorana Cîrstea sem perder sets. Na semifinal, enfrentou a ucraniana Marta Kostyuk, nº 15 do mundo, que havia derrotado Andreeva na final de Madri semanas antes — parte de uma sequência de 17 vitórias consecutivas no saibro. Dessa vez, o roteiro foi diferente: Andreeva dominou completamente, venceu por 6-1 e 6-3 em 1h16min e se vingou da derrota na capital espanhola.
"Estou muito animada por jogar minha primeira final de Grand Slam. Tenho uma conexão especial com Paris", disse a russa após a partida.
O conto de fadas de Maja Chwalińska
Se a história de Andreeva é impressionante, a de Maja Chwalińska beira o inacreditável. A polonesa de 24 anos chegou a Paris como qualifier, ocupando a 114ª posição do ranking mundial. Para entrar na chave principal, precisou vencer três partidas do qualifying. Depois, venceu mais seis na chave principal. No sábado, disputará sua décima partida no torneio — três a mais que qualquer outra finalista.
Chwalińska é a finalista de menor ranking na história de Roland Garros. Também é apenas a segunda qualifier a chegar a uma final de Grand Slam na Era Aberta. E sua trajetória fora das quadras é tão surpreendente quanto as vitórias. Durante o torneio, ela revelou que não tinha certeza se conseguiria pagar o hotel em Paris por mais uma semana. A empresa polonesa de nutrição esportiva Oshee — mesma patrocinadora de Iga Świątek — interveio e cobriu suas despesas.
Antes de Roland Garros, Chwalińska havia acumulado aproximadamente US$ 864 mil em prêmios ao longo de toda a carreira. Só por chegar à final, já garantiu ao menos US$ 1,6 milhão. Subirá do 114º lugar para aproximadamente o 21º posto do ranking mundial.
A trajetória da polonesa é marcada por superação. Em 2022, passou por uma cirurgia séria e passou anos tentando reconstruir o corpo e o ranking. Nunca havia passado da segunda rodada de um Grand Slam antes desta quinzena. Na semifinal, derrotou Diana Shnaider, cabeça 25, por 7-6(4) e 6-4, em uma partida que muitos consideram a mais emocionante do torneio feminino.
"Se alguém tivesse me dito antes do torneio que eu chegaria às oitavas de final, eu provavelmente não teria acreditado", disse Chwalińska durante a semana.
Final histórica de Roland Garros 2026
A final deste sábado marca um feito que não ocorria em Roland Garros desde 1977: duas jogadoras estreantes em finais de Grand Slam disputando o título. O torneio feminino deste ano foi um dos mais imprevisíveis da história recente. A número 1 do mundo, Aryna Sabalenka, caiu nas quartas de final para Diana Shnaider. A pentacampeã Iga Świątek foi derrotada na quarta rodada por Marta Kostyuk. Nenhuma campeã anterior de Roland Garros restou na chave. Pela primeira vez desde 2011, todas as quatro semifinalistas tinham menos de 25 anos.
Andreeva e Chwalinska se enfrentaram uma vez antes, em um torneio ITF em Istambul em 2022, com vitória da russa em sets diretos. Mas ambas chegam transformadas à decisão.
O duelo também carrega um subtexto geopolítico: Andreeva é russa e joga sob bandeira neutra, enquanto Chwalinska é polonesa — país vizinho e de forte oposição à invasão russa na Ucrânia. A torcida parisiense, tradicionalmente calorosa com azarões, deve apoiar massivamente a polonesa.
O que esperar da decisão
Andreeva é a favorita. Mais experiente em grandes palcos, já venceu cinco títulos WTA, tem um saibeiro consistente e um backhand de duas mãos que é uma das armas mais temidas do circuito. Chega descansada após uma semifinal tranquila.
Chwalińska, por outro lado, vive o momento da vida. Seu estilo agressivo, com dropshots precisos e variação tática, desmontou adversárias bem mais experientes. Ela já jogou mais partidas no saibro parisiense do que qualquer outra jogadora na chave — são nove vitórias em duas semanas.
A final feminina de Roland Garros 2026 acontece neste sábado, 6 de junho, na quadra Philippe-Chatrier, com transmissão ao vivo no Brasil pela ESPN e Disney+. Não importa o resultado: uma nova campeã será coroada em Paris, e a história do tênis feminino ganhará mais um capítulo inesquecível.
