Por que a pegada é o fundamento do seu jogo

A forma como você segura a raquete é a base de todo o gesto técnico no tênis. A pegada influencia estabilidade, precisão, geração de spin e potência — além de facilitar a transição entre forehand, backhand, saque e voleio. Muitos iniciantes concentram-se apenas em swing ou posicionamento de pés e acabam adotando vícios na empunhadura que se tornam difíceis de corrigir. Corrigir erros ao segurar raquete de tênis desde cedo acelera a evolução do jogador, melhora a consistência e reduz risco de lesões por tensão excessiva no antebraço.

Erros mais comuns na pegada da raquete de tênis

Abaixo os deslizes que mais aparecem em iniciantes e também em jogadores com experiência que nunca corrigiram hábitos:

1) Posição da mão muito alta ou muito baixa no cabo

Segurar a raquete rente à cabeça (muito alto) ou próximo à base do cabo (muito baixo) altera a alavanca do braço e prejudica controle e alcance. A mão deve encontrar um ponto estável no cabo conforme a pegada escolhida.

2) Mão excessivamente fechada ou muito solta

Segurar com o punho tenso reduz sensibilidade e provoca fadiga; muito solto compromete a transferência de energia e o controle. Procure uma firmeza média, que permita estabilidade sem rigidez.

3) Pegada lateral errada (mão deslocada)

Colocar a palma deslocada para a “face errada” da raquete causa batidas desalinhadas e erros de direção. Isso costuma ocorrer quando o jogador tenta compensar um swing ruim com a mão.

4) Trocar a raquete/pegada durante o ponto de forma equivocada

Mudanças bruscas de grip no meio do ponto (ou virar a raquete) geram perda de timing, deixam o jogador vulnerável e podem passar péssima impressão competitiva se interpretadas como falta de empenho.

5) Usar uma única pegada para tudo

Tentar jogar saque, voleio e groundstrokes com o mesmo posicionamento da mão limita versatilidade. Cada golpe tem uma pegada mais eficiente.

6) Não preparar a troca de pegada no momento certo

A troca precisa ocorrer no preparo (backswing), não no momento do impacto. Fazer a mudança tarde faz com que a mão chegue torta ao contato.

Lições do caso Bernard Tomic: o episódio no Madrid Open (2016)

Em Madrid (2016), durante o match point contra Fabio Fognini, Bernard Tomic virou a raquete de cabeça para baixo — segurando a raquete pelas cordas, com o cabo apontando para a frente — e não tentou devolver o saque. O gesto, ocorrido quando Tomic estava 6–2, 5–4 e 0–40, foi amplamente coberto pela mídia como sinal de desistência (tanking) e virou exemplo de como um movimento inusitado com a raquete afeta a percepção pública e a ética competitiva (veja cobertura da ESPN: https://www.espn.com/tennis/story/_/id/15456164/bernard-tomic-gives-match-point-madrid-open-loss e ABC Australia: https://www.abc.net.au/news/2016-05-04/bernard-tomic-reverse-racquet-madrid-open-match-point/7382324).

Bernard Tomic segurando a raquete invertida no Madrid Open 2016

Do ponto de vista técnico, o gesto é exemplar por duas razões práticas: (1) independe do nível do jogador — falhas de pegada e postura ocorrem até entre profissionais; (2) revela como um erro de posicionamento ou uma atitude inadequada pode eliminar qualquer chance de recuperação no ponto. Use esse caso como alerta e incentivo para treinar a pegada de forma deliberada, mantendo o profissionalismo em quadra.

Tipos de pegadas e quando usá-las (resumo prático)

A escolha da pegada define o caráter do seu golpe. Abaixo as mais relevantes para iniciantes e intermediários:

Diagrama das posições de pegada no tênis

Continental

Pegada continental no tênis

Eastern (forehand)

  • Características: combinação de potência e controle, adequada para drives planos.
  • Indicada para: forehands clássicos e jogadores que querem transição simples para slices.

Pegada Eastern Forehand no tênis

Semi-western

  • Características: muito comum no circuito moderno; favorece topspin sem sacrificar tanto a capacidade de lidar com bolas altas.
  • Indicada para: jogadores que buscam agressividade do fundo de quadra.

Full Western

  • Características: agrega muito topspin, exige preparação baixa e maior tempo de ajuste.
  • Indicada para: jogadores que dominam o movimento e conseguem lidar com bolas altas; não é recomendada como primeira escolha para iniciantes.

Para o backhand de duas mãos, a mão não dominante costuma assumir uma empunhadura próxima da eastern enquanto a dominante dá suporte; já o backhand de uma mão pede maior precisão no posicionamento do ‘V’ entre polegar e indicador.

Fontes técnicas e guias do circuito (ATP/ITF) trazem diagramas e vídeos úteis para entender cada variação: ATP Tour (https://www.atptour.com/) e ITF Coaching (https://www.itftennis.com/en/).

Como identificar seus erros — método prático

  1. Grave seus treinos: filme de lado e de frente em câmera lenta. Observe onde está o ‘V’ entre polegar e indicador, a verticalidade do cabo e se a mão se desloca no impacto.
  2. Use um checklist rápido: posição do ‘V’, firmeza do cabo, altura da mão, e se a troca de pegada ocorre no preparo.
  3. Peça feedback de um treinador: em poucos minutos um bom técnico identifica desvios sutis.

Gravar progressos a cada semana mostra claramente o que melhora com prática deliberada.

Dicas práticas e ações imediatas para corrigir a pegada

  • Marque a posição da mão: cole um adesivo ou fita no cabo na posição que você deseja como padrão. A referência tátil acelera a memorização.
  • Treine o ‘V’: treine apenas olhando para o cabo até automatizar a posição correta para cada pegada.
  • Firmeza: segure com força média — suficiente para controle, sem tensão — e concentre-se em relaxar antebraço e ombro.
  • Troca de pegada: pratique mudanças rápidas fora da quadra (sem bola) e depois em drills simples; a troca deve acontecer no preparo do golpe.
  • Sensibilidade: exercícios segurando a raquete com três dedos por curtos períodos ajudam a reduzir tensão e a perceber o contato.
  • Analise modelos: compare seu vídeo com jogadores do mesmo estilo/porte físico e adapte sem copiar cegamente.

Exercícios estruturados para treinar a pegada (sessões e progressão)

Siga um ciclo de 3–4 sessões semanais com foco na pegada. Cada sessão pode durar de 40 a 60 minutos, intercalando técnica e golpe:

Exercício 1 — Toques na parede (10–12 min)

  • Distância: 3–4 m da parede.
  • Objetivo: repetir a mesma pegada e ritmo.
  • Como: faça forehands contínuos com a mesma empunhadura. Varie ângulo sem alterar a posição da mão.

Exercício 2 — Voleios de curta distância (8–12 min)

  • Distância: 1,5–2 m entre os jogadores.
  • Objetivo: fixar continental para voleio.
  • Como: receba bolas rápidas e curtas; mantenha movimento curto do punho e firmeza média.

Exercício 3 — Sprints de pegada (15 min)

  • Objetivo: agilidade na troca entre continental, eastern e semi-western.
  • Como: no paredão ou com parceiro, execute 5 golpes com uma pegada, troque para a seguinte e repita. Faça 4 séries.

Exercício 4 — Saque com objetivo (15 min)

  • Objetivo: encontrar o equilíbrio de firmeza e posição continental.
  • Como: marque alvos, concentre-se na empunhadura continental. Filme para checar ‘V’ e punho.

Exercicio 5 — Sensibilidade (5 min diários)

  • Objetivo: reduzir tensão.
  • Como: segure a raquete com 3 dedos e faça swings lentos sem bola; retome com 4 dedos.

Progressão: depois de 4 semanas, aumente intensidade e combine drills em situações de jogo.

Checklist rápido para evitar os principais erros no dia a dia

  • A posição do ‘V’ está correta para o golpe que vou usar?
  • Minha mão está na altura certa do cabo?
  • Estou com firmeza média (não rígida)?
  • A troca de pegada foi feita no preparo, não no impacto?
  • O overgrip está em boas condições e não deixa o cabo escorregadio?

Responder “sim” para a maioria desses itens reduz drasticamente os problemas em quadra.

Observações finais e recomendações práticas

Erros ao segurar raquete de tênis são muito comuns e fáceis de corrigir quando tratados de forma deliberada. Combine prática consistente (exercícios estruturados) com gravação e feedback de treinador para acelerar ganhos. Use o caso de Bernard Tomic como lembrete: atitudes ou movimentos estranhos com a raquete interferem no resultado e na imagem em quadra. Em vez de se expor a críticas, transforme essa referência em motivação para treinar a base técnica.

Fontes e leitura adicional

Ajuste suas sessões, grave e monitore a evolução: pequenos ganhos na pegada trazem grandes resultados no placar.

Acompanhe mais dicas, análises técnicas e material para iniciantes e intermediários no Esporte Tênis — fique por dentro das melhores práticas para evoluir seu jogo.