Enquanto a poeira de Wimbledon ainda assenta, o circuito masculino já está de volta ao saibro europeu para uma das semanas mais charmosas do calendário. Entre 13 e 19 de julho, três ATP 250 acontecem simultaneamente em Båstad (Suécia), Gstaad (Suíça) e Umag (Croácia), formando a tradicional gira de saibro que serve como ponte entre a temporada de grama e a campanha norte-americana de quadra dura que culmina no US Open.

Por que existe uma gira de saibro depois de Wimbledon?

À primeira vista, trocar a grama de Wimbledon pelo saibro parece um contrassenso. Mas a explicação é histórica e logística. Durante décadas, o calendário do tênis reservou julho para torneios de saibro na Europa continental, uma tradição que remonta ao início do século XX, quando o saibro era o piso dominante no continente. Mesmo depois da profissionalização do circuito, esses torneios mantiveram seus lugares no calendário.

Para os jogadores, a gira de julho tem um papel estratégico claro: é a última chance de somar pontos e títulos no piso lento antes da migração para o piso duro. Especialistas de saibro como Casper Ruud e Alexander Bublik sabem que estas são as melhores oportunidades da segunda metade do ano para faturar títulos. E para tenistas que foram eliminados cedo em Wimbledon, como Andrey Rublev (que caiu na primeira rodada para Roman Safiullin), a gira de julho oferece uma chance imediata de recuperação.

Båstad: 78 anos de história à beira-mar

O Nordea Open em Båstad é o mais antigo dos três, com 78 edições masculinas. A cidade sueca, situada na costa oeste do país, recebe o torneio desde 1948. O estádio de tênis de Båstad foi fundado por Ludwig Nobel, sobrinho de Alfred Nobel, que construiu uma quadra em 1907 no exato local onde hoje está a quadra central. O cenário é um dos mais fotografados do circuito: as quadras de saibro com o mar ao fundo, sob o sol do verão escandinavo.

Em 2026, o russo Andrey Rublev (#13 do mundo) lidera a chave como principal cabeça de chave. O italiano Luciano Darderi (#16), campeão em Båstad e Umag em 2025, também está na disputa tentando defender os pontos. Os wildcards incluem o búlgaro Grigor Dimitrov, que já venceu seu jogo de primeira rodada, e o prodígio francês Moïse Kouamé, de 17 anos, que fez sua estreia em um ATP 250.

Os primeiros resultados em Båstad mostram que os cabeças de chave estão correspondendo: Sebastian Báez (#8) virou sobre o sueco Max Dahlin por 4-6, 6-4, 6-1; Nuno Borges (#5) derrotou Kouamé por 6-4, 6-2; e Botic van de Zandschulp (#6) passou pelo japonês Taro Daniel em sets diretos.

Gstaad: a despedida de Wawrinka e a volta de Tsitsipas

A 58ª edição do EFG Swiss Open Gstaad, disputada na Roy Emerson Arena aos pés dos Alpes suíços, entrou para a história em 2026 como o palco da despedida de Stan Wawrinka. Aos 41 anos, o tricampeão de Grand Slam (Australian Open 2014, Roland Garros 2015, US Open 2016) jogou sua última partida em casa, caindo na primeira rodada para o português Jaime Faria por 6-7(8), 6-4, 6-4 em 2h38. Wawrinka sacou 16 aces, mas não converteu nenhuma das seis chances de break que teve. Os organizadores presentearam o suíço com um par de esquis como lembrança de sua despedida.

O cabeça de chave #1 Alexander Bublik (#11 do mundo) defende o título conquistado em 2025, enquanto Casper Ruud (#12) chega como segundo favorito. O grego Stefanos Tsitsipas, que recebeu um wildcard, estreou com vitória consistente sobre o peruano Ignacio Buse (#5) por 6-4, 6-4, vencendo impressionantes 77,1% dos pontos com seu saque.

O brasileiro Thiago Monteiro também marcou presença em Gstaad. O cearense, ex-61º do mundo e atual 292º, disputou o qualifying e venceu uma batalha de 3h08 contra o francês Pierre-Hugues Herbert por 7/6(7), 6/7(4), 7/6(8), salvando um match-point no tie-break do terceiro set.

Umag: surpresas na Costa Croata

Na costa do Adriático, a Plava Laguna Croatia Open Umag chega à 36ª edição no ATP Stadium Goran Ivanišević. O italiano Flavio Cobolli (#10 do mundo, melhor ranking da carreira) lidera a chave, seguido pelo espanhol Alejandro Davidovich Fokina (#25).

A primeira rodada já reservou surpresas. O cabeça de chave #5 Alexander Blockx, da Bélgica, foi eliminado pelo francês Titouan Droguet, que venceu 11 dos últimos 12 games da partida: 3-6, 6-2, 6-0. O espanhol Pablo Carreño Busta avançou, assim como o argentino Camilo Ugo Carabelli (#7), que precisou de três sets para superar o alemão Marko Topo.

O que vem depois: a transição para o piso duro

Estes torneios de saibro marcam o fim de uma era no calendário. A partir da semana de 27 de julho, o circuito migra definitivamente para a quadra dura norte-americana. A sequência inclui:

  • ATP 500 de Washington (27 de julho a 2 de agosto)
  • Masters 1000 de Montreal (3 a 10 de agosto)
  • Masters 1000 de Cincinnati (10 a 17 de agosto)
  • US Open, o último Grand Slam da temporada (31 de agosto a 13 de setembro)

Para brasileiros, a atenção se volta para João Fonseca (#27 do mundo), que após cair na terceira rodada de Wimbledon fará sua preparação para o US Open passando pelos Masters 1000 de Montreal e Cincinnati. Antes disso, ele participa do UTS Rio, torneio de exibição no Maracanãzinho entre 16 e 18 de julho.

Onde assistir no Brasil

Os torneios de Båstad, Gstaad, Umag (e também Kitzbühel, na semana seguinte) são transmitidos no Brasil pela ESPN (TV por assinatura) e pelo Disney+ (streaming). Os jogos ocorrem entre o início da manhã e o começo da tarde no horário de Brasília, já que a Europa está cerca de 5 horas à frente.

O charme do saibro de julho

Há algo especial nestes torneios. Enquanto os Grand Slams são dominados pelo peso dos rankings e das expectativas, Båstad, Gstaad e Umag preservam uma atmosfera mais intimista. São torneios onde a torcida pode se aproximar dos jogadores, onde as paisagens são tão memoráveis quanto as partidas, e onde a tradição encontra o tênis de alto nível. Para o fã brasileiro, é uma oportunidade de acompanhar nomes como Rublev, Tsitsipas, Dimitrov e Ruud em um formato mais acessível — e de torcer por Thiago Monteiro na chave de Gstaad.

Antes que o tênis migre de vez para o piso duro americano, vale a pena aproveitar os últimos dias de saibro europeu. O verão no hemisfério norte está só no começo, mas para o circuito, este é o último baile na terra batida.