Os grunhidos nas quadras

Ouvir um som agudo ou um “grunhido” no momento do impacto já virou parte do repertório sonoro do tênis moderno. Para alguns espectadores, é a expressão natural de um esforço explosivo; para outros, é ferramenta tática ou comportamento antidesportivo. O debate volta à tona sempre que um episódio de alto perfil acontece — como a penalidade aplicada a Aryna Sabalenka no Australian Open de 2026 — e levanta perguntas técnicas, científicas e regulatórias. Este artigo analisa a história, a evidência científica, as controvérsias e o que jogadores amadores podem fazer para controlar ou incorporar vocalizações ao gesto técnico.

Tennis player grunting action shot

História e evolução dos gritos nas quadras

Os grunhidos não surgiram de um dia para o outro. Registros de vocalizações audíveis no tênis existem desde os anos 1970 (por exemplo, Jimmy Connors) e ganharam grande atenção midiática no circuito feminino com Monica Seles nos anos 1990. A imprensa chegou a criar medidores — o lendário “grunt-o-meter” — que publicou picos em torneios como Wimbledon e alimentou o debate público sobre decibéis e esportividade (Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Gruntingintennis).

Monica Seles grunting in tennis match

Nos anos 2000 e 2010 a questão ressurgiu com Michelle Larcher de Brito, Maria Sharapova, As irmãs Williams e outros nomes que passaram a ser associados ao tema. Em 2009, por exemplo, a repercussão em Roland Garros e a medição de gritos acima de 100 dB para alguns atletas impulsionaram críticas públicas e chamadas para intervenções técnicas e regulamentares.

Ao longo das décadas, a prática foi vista ora como reflexo fisiológico (exalação), ora como tática (distrair o rival). Treinadores, escolas e personalidades do circuito foram apontados como influências, mas muitas vezes o som tem origem em hábito individual ou em mecanismos reflexos ligados ao gesto técnico.

O caso de Aryna Sabalenka: análise dos seus grunhidos

Aryna Sabalenka se consolidou como uma das jogadoras de maior potência e intensidade do circuito. Seus grunhidos acompanharam essa identidade; no Australian Open de 2026, um árbitro aplicou inicialmente advertência e, depois, um ponto de penalidade por “hindrance”, decisão que gerou ampla repercussão, discussões entre comentaristas e reações da própria jogadora (The Telegraph: https://www.telegraph.co.uk/tennis/2026/01/29/aryna-sabalenka-for-disruptive-grunting-at-australian-open/; Sports Illustrated: https://www.si.com/tennis/australian-open/aryna-sabalenka-double-grunt-call-controversy; Irish Times: https://www.irishtimes.com/sport/tennis/2026/01/29/she-really-pissed-me-off-sabalenka-hits-out-at-umpire-after-grunting-penalty/).

Aryna Sabalenka grunting controversy at Australian Open

Do ponto de vista técnico e arbitral, dois pontos costumam orientar a análise:

  • Tempo da vocalização: se o som coincide estritamente com o ponto de impacto ou ocorre imediatamente após, tende a ser interpretado como exalação natural. Se há prolongamento que invade a janela de preparação do adversário, o árbitro pode entender haver obstrução (hindrance).
  • Padrão e intensidade: repetições de sons prolongados no momento crítico (por exemplo, durante o preparo do adversário) aumentam a percepção de vantagem indevida.

No caso Sabalenka, a controvérsia se deu exatamente nessa fronteira. Críticos enxergaram intenção; defensores apontaram reflexo técnico e a falta de critérios objetivos para mensurar o que configura impedimento. Houve ainda um efeito psicológico: a penalidade agravou a tensão do momento e, segundo relatos, pode ter feito a jogadora amplificar a resposta emocional, ilustrando como punições podem produzir reações contrárias à intenção disciplinadora.

Benefícios científicos dos grunhidos no desempenho

Ao contrário do senso comum restrito ao incômodo auditivo, há literatura científica que investiga efeitos fisiológicos e perceptivos dos grunhidos.

Evidência experimental

  • Aumento de velocidade e ativação muscular: estudo de O’Connell et al. (2014) no Journal of Strength and Conditioning Research avaliou atletas universitários e encontrou ganhos significativos em velocidade de saque e em atividade muscular no forehand quando os sujeitos vocalizavam no momento do golpe (PubMed: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25412161/).
  • Velocidade da bola sem custo extra de oxigênio: outro estudo de 2014 (Callison et al.) observou aumento médio de ~3,8% na velocidade da bola com vocalização, sem incremento do custo de oxigênio, o que indica eficiência do gesto (PubMed: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24956374/).
  • Efeitos sobre a antecipação do adversário: pesquisa publicada na PLOS One (2019) demonstrou que grunhidos mais intensos tendem a fazer observadores prever trajetórias mais longas, alterando a antecipação temporal do oponente — um efeito perceptivo que pode influenciar decisões de devolução (PLOS One: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0214819).

Síntese e recomendações práticas

Uma revisão sistemática recente (Perceptual and Motor Skills, 2025) compilou evidências e recomendou que treinadores considerem integrar a vocalização ao trabalho técnico, para que o gesto seja parte do padrão respiratório e de ativação muscular, sempre de forma ética e contextualizada (Perceptual and Motor Skills, 2025: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/00315125251320133).

Mecanismos fisiológicos propostos

  • Controle respiratório: vocalizar auxilia a expirar no momento do impacto, evitando apneia e melhorando transferência de força.
  • Reflexos de reforço: a contração do maxilar pode desencadear reflexos que aumentam a ativação muscular em membros inferiores e tronco.
  • Marcador temporal: o som funciona como referência rítmica para a coordenação do movimento.

Esses mecanismos explicam por que grunhidos podem gerar ganhos mensuráveis de potência e consistência quando são parte integrada da técnica, e não apenas ruídos involuntários.

Controvérsias e regras: ITF, ATP e WTA

Regulamentar grunhidos esbarra em limites legais e práticos. As regras do tênis não proíbem explicitamente grunhidos, mas preveem dispositivos para punir obstrução (hindrance) e conduta antidesportiva. Documentos oficiais gerais (ITF Rules: https://www.itftennis.com/en/about-us/governance/rules-and-regulations/) e os regulamentos operacionais de ATP (ATP Rulebook: https://www.atptour.com/en/corporate/rulebook) e WTA aplicam conceitos amplos que permitem ao árbitro intervir quando entender que houve interferência deliberada.

A dificuldade principal é a subjetividade da avaliação: intenção, momento e grau de perturbação são itens interpretativos. Episódios recentes — de Sabalenka ao Australian Open 2026 a advertências a outros jogadores em diferentes torneios — exibem a falta de um critério padronizado. Entre as propostas discutidas por especialistas e comentaristas estão:

  • Definir janelas temporais objetivas: estabelecer quantos milissegundos antes do golpe do adversário a vocalização se torna obstrutiva.
  • Uso de medição acústica: testar microfones e decibelímetros para registrar amplitude sonora no ponto crítico do rally.
  • Protocolos graduais de advertência: documentação clara do motivo da advertência e registros em vídeo/áudio para transparência.

Obstáculos e argumentos contrapostos

Críticos dessas intervenções alertam para a naturalidade do gesto (muitos o descrevem como exalação) e para os custos logísticos e de interpretação técnica de medições sonoras em quadras com acústicas variadas. Há risco também de penalizar reflexos fisiológicos e transformar julgamentos técnicos em debates técnicos-acústicos que nem sempre refletem a complexidade do gesto atlético.

Outros tenistas famosos por grunhidos

Além de Sabalenka, vários nomes históricos e contemporâneos são citados nesse contexto:

  • Monica Seles e Maria Sharapova: associadas a grunhidos emblemáticos desde os anos 1990 e 2000; Sharapova já teve picos medidos acima de 100 dB em reportagens (Wikipedia).

Maria Sharapova grunting during tennis

  • As irmãs Williams: com vocalizações marcantes que também foram foco de comentários midiáticos.
  • Rafael Nadal e Novak Djokovic: exemplos masculinos em que a vocalização apareceu em discussões; Djokovic reduziu em parte esse comportamento ao longo da carreira.

O histórico mostra que tanto homens quanto mulheres adotam vocalizações, com variação ao longo da carreira: alguns atletas modulam o volume por orientação técnica, outros ajustam para reduzir controvérsias.

Dicas para jogadores amadores controlarem os grunhidos

Amadores que desejam diminuir ou controlar as vocalizações sem perder rendimento podem aplicar estratégias simples e práticas:

  • Treino respiratório: exercícios de respiração diafragmática (inspirar pelo nariz, expirar pela boca de forma dirigida) ajudam a desenvolver uma expiração controlada no impacto.
  • Substituir o grito por exalação curta: praticar uma exalação curta e explosiva sincronizada com o ponto de contato reduz o volume e mantém o benefício respiratório.
  • Biofeedback e gravação: gravar áudio e vídeo do treino permite avaliar amplitude, duração e sincronização do som e monitorar progresso.
  • Integração em treinos técnicos: incluir a vocalização como elemento a ser controlado em drills repetitivos (por exemplo, exigir exalação curta em séries de 20 bolas).
  • Trabalho psicológico: técnicas de regulação emocional, como respiração em caixa, ancoragens e atenção plena, reduzem reações de frustração que levam a gritos prolongados.
  • Respeito ao ambiente: combinar expectativas com parceiros de treino e seguir normas de convivência em clubes e torneios locais.

Essas práticas permitem que o jogador preserve ganhos biomecânicos (se houver) e minimize incômodos para o outro.

Perspectivas futuras

A pesquisa sobre grunhidos no tênis segue avançando, com estudos experimentais que apontam por um lado ganhos biomecânicos e perceptivos e, por outro, impactos sobre a experiência competitiva. Episódios de alto impacto público, como a chamada por hindrance a Aryna Sabalenka no Australian Open de 2026, elevam a pressão por critérios mais claros na arbitragem.

Possíveis caminhos nas próximas temporadas incluem:

  • Pilotos com medição acústica: testes controlados de microfones e decibelímetros em eventos-teste para avaliar viabilidade prática.
  • Diretrizes temporais: definição de janelas mais objetivas quanto ao que configura obstrução sonora.
  • Programas educativos: formação de árbitros, treinadores e atletas sobre o que a ciência diz e como distinguir exalação reflexa de comportamento potencialmente perturbador.

O equilíbrio desejável deve preservar a liberdade técnica do atleta — quando o som é reflexo fisiológico e parte do gesto — e proteger a integridade competitiva, evitando vantagem indevida por distração. Enquanto isso não se consolida, o tema continuará rendendo debates, análises científicas e, claro, clipes virais nas redes.

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