Lesões comuns no tênis: cotovelo de tenista e tendão de Aquiles

O tênis é um esporte de movimentos repetitivos, acelerações e mudanças rápidas de direção. Essa combinação expõe atletas — desde amadores até profissionais — a sobrecargas locais que frequentemente se manifestam como cotovelo de tenista (epicondilite lateral) e dor no tendão de Aquiles. Embora fatores mecânicos e técnicos sejam bem reconhecidos como causas, pesquisas recentes apontam um mecanismo molecular que pode explicar por que algumas tendinopatias se tornam crônicas: a ativação da proteína HIF1.

Entender o papel da HIF1α ajuda tenistas e equipe técnica (treinador, fisioterapeuta, médico do esporte) a pensar em prevenção e tratamento que vão além do repouso e das intervenções paliativas.

Jogador de tênis com lesão no cotovelo de tenista

O que é a proteína HIF1 e qual é seu papel nos tendões

HIF1α é um complexo proteico que atua como sensor celular da hipóxia (redução de oxigênio). A subunidade HIF1α funciona como fator de transcrição: quando ativada, ela altera a expressão de genes envolvidos em metabolismo, angiogênese e remodelação da matriz extracelular.

Nos tendões submetidos a sobrecarga mecânica crônica, a ativação de HIF1α parece desencadear mudanças patológicas na estrutura do tecido:

  • aumento de crosslinks (ligações) entre fibras de colágeno, tornando o tendão mais rígido e menos resiliente;
  • alteração do turnover das fibras e da composição proteica da matriz;
  • respostas inflamatórias e de reparo descoordenadas que não restauram a arquitetura tendinosa saudável.

Comparação entre tendão saudável e tendinopatia

Essas alterações ajudam a explicar por que episódios repetidos de dor e carga elevada (por exemplo, séries longas de saques ou treinos intensos sem recuperação adequada) podem evoluir para tendinopatia crônica.

Evidências científicas: estudos em humanos e modelos animais

Um trabalho translacional liderado por pesquisadores do ETH Zurich, publicado em 2026, integrou análise multiômica de amostras humanas de tendinopatia com modelos murinos e experimentos in vitro. Os principais achados foram:

  • aumento de assinaturas genéticas reguladas por HIF1α nas amostras humanas de tendinopatia;
  • em modelos de sobrecarga mecânica em camundongos, ativação crônica de HIF1α em tenócitos causou remodelação patológica da matriz tendinosa;
  • remoção genética de Hif1α dos tenócitos protegeu os tendões contra alterações induzidas por sobrecarga.

O artigo central está disponível em Science Translational Medicine (DOI: 10.1126/scitranslmed.adt1228) e o resumo institucional pode ser consultado no site do ETH Zurich: https://ethz.ch/en/news-and-events/eth-news/news/2026/01/researchers-discover-trigger-of-tendon-disease.html. Uma divulgação jornalística acessível também foi publicada em ScienceDaily: https://www.sciencedaily.com/releases/2026/02/260212025618.htm.

Esses dados posicionam HIF1α não apenas como um marcador, mas como um motor causal da degeneração tendinosa em resposta à sobrecarga mecânica — pelo menos nos modelos estudados. Importante: a transposição imediata para terapias clínicas exige cautela. HIF1 tem funções críticas na adaptação celular à hipóxia em vários órgãos; sua inibição sistêmica pode ter efeitos indesejáveis.

Sintomas e diagnóstico de tendinopatias em tenistas

As tendinopatias mais frequentes no tênis incluem:

Tendinite no tendão de Aquiles em tenista

Sinais e testes úteis no campo e na clínica:

  • dor localizada à palpação do tendão;
  • aumento da dor com contração/resistência específica (ex.: extensão resistida do punho no cotovelo de tenista);
  • perda de força funcional e alterações na mecânica do golpe — redução de velocidade e precisão no saque;
  • testes específicos do exame físico e avaliação por imagem quando necessário: ultrassonografia musculoesquelética é ótima para avaliar estrutura e vascularização; ressonância magnética (RM) é indicada em casos complexos ou refratários.

Identificar fatores de risco (aumento abrupto do volume de treinos, mudanças de superfície, técnica inadequada, calçados inapropriados) é parte crucial do diagnóstico funcional.

Estratégias de prevenção para jogadores de tênis (com foco no mecanismo HIF1)

Com o reconhecimento de que episódios repetidos de hipóxia tecidual e sobrecarga mecânica podem ativar HIF1α, as medidas preventivas devem buscar reduzir picos de estresse e melhorar a capacidade de recuperação do tendão.

1) Periodização e controle de carga

  • Planejar variações de intensidade e volume; evitar blocos longos de treinos intensos sem ciclos de descarga;
  • Implementar microperiodização (variação diária) e semanas de recuperação ativa após competições.

2) Técnica e biomecânica

  • Trabalhar pegada, preparação do braço e transferência de peso para reduzir forças de pico no cotovelo; ajustar a técnica do saque com treinador e fisioterapeuta esportivo;
  • Corrigir padrão de corrida e saltos para reduzir sobrecarga no tendão de Aquiles.

3) Fortalecimento e preparação física

  • Protocolos de fortalecimento excêntrico progressivo são bem evidenciados para tendinopatias;
  • Fortalecer cadeia posterior (panturrilha, glúteos, isquiotibiais) para redistribuir cargas e melhorar amortecimento;
  • Exercícios de resistência para antebraço (forearm) que aumentem tolerância à carga do cotovelo.

Exercício excêntrico para prevenção de cotovelo de tenista

4) Estratégias de recuperação e circulação local

  • Aquecimento adequado e terapia térmica superficial (calor antes do treino para melhorar perfusão local);
  • Técnicas que favoreçam vascularização e remoção de metabólitos (mobilidade, massagem profunda, exercícios de fluxo); uso criterioso de gelo após treinos intensos quando houver inflamação aguda;
  • Sono e nutrição adequados para permitir processos de reparo.

5) Equipamento e superfícies

  • Escolha de raquetes, encordoamento e tensão apropriados ao estilo e nível do jogador para reduzir vibração e pico de força;
  • Calçados com bom suporte e amortecimento que respeitem as características da quadra.

Essas estratégias não “bloqueiam” HIF1α diretamente, mas reduzem os estímulos (hipóxia local e sobrecarga mecânica) que promovem sua ativação.

Opções de tratamento à luz da nova pesquisa

Embora a descoberta sobre HIF1α abra possibilidades terapêuticas, as aplicações clínicas práticas no curto prazo permanecem centradas em intervenções já validadas, com atenção ao contexto da nova evidência.

1) Reabilitação adaptada (base)

  • Protocolos excêntricos progressivos para tendões são o alicerce do tratamento de tendinopatias crônicas;
  • Reeducação biomecânica (corrigir técnica de saque, ajuste de grip), controle de carga e retorno gradual ao treino.

2) Modalidades injetáveis e biológicas

  • PRP (plasma rico em plaquetas) é uma opção frequentemente usada; evidência clínica é heterogênea, mas pode ser considerada em casos selecionados, discutindo expectativas realisticamente com o médico;
  • Terapias emergentes que modulam processos inflamatórios e de reparo estão em estudo, mas ainda carecem de padronização.

3) Abordagens experimentais baseadas em HIF1

  • Pesquisas futuras podem avaliar inibidores locais de HIF1α ou moduladores de sua via de sinalização para prevenir remodelação patológica da matriz;
  • A aplicação prática exigirá estratégias que evitem efeitos sistêmicos indesejáveis (por exemplo, administração local e direcionada). Ainda não há tratamentos clínicos aprovados para esse mecanismo específico.

4) Intervenção cirúrgica e procedimentos minimamente invasivos

  • Em casos refratários à reabilitação bem conduzida, procedimentos para desbridamento ou correção da inserção tendinosa podem ser indicados, sempre seguidos de reabilitação funcional.

5) Abordagem multidisciplinar

  • Integração entre treinador, fisioterapeuta, médico do esporte e, quando necessário, especialista em medicina regenerativa é essencial para planejar retorno seguro às quadras.

Recomendações práticas e sinais de alerta para tenistas

  • Monitore sinais precoces: dor que aumenta durante sequências de saques ou corridas exige reavaliação imediata.
  • Não adie a redução de carga diante de episódios repetidos de desconforto: a ativação crônica de vias como HIF1α pode consolidar alterações estruturais.
  • Invista em programas de força excêntrica, técnica e controle de carga antes de considerar intervenções invasivas.
  • Procure avaliação por imagem (ultrassom ou RM) se a dor persistir por mais de 6 semanas ou limitar a performance.
  • Discuta com o médico opções biológicas (ex.: PRP (plasma rico em plaquetas)) e avalie riscos, benefícios e evidência científica disponível.

A descoberta sobre HIF1α não altera de imediato todas as estratégias clínicas, mas fornece um framework racional para entender por que tendões sobrecarregados podem falhar em cicatrizar adequadamente. Para jogadores de tênis, a mensagem prática continua sendo: prevenção (periodização e técnica), reabilitação específica e diagnóstico precoce são as melhores defesas enquanto a ciência avança para tratamentos mais dirigidos.

Fontes selecionadas

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