Entre as causas de dor e perda de desempenho, a disfunção escapular (scapular dyskinesis) surge como um fator frequente e tratável: altera a base estável para o movimento do ombro, muda a sequência de ativação muscular e aumenta a carga sobre o manguito rotador e estruturas glenoumerais. Estudos de revisão e relatos de caso demonstram que programas específicos de reabilitação associados à correção técnica do saque são eficientes para reduzir dor e devolver o jogador às quadras (ver revisão clínica: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7661674/ e case report com análise de stroke efficiency: https://ijspt.scholasticahq.com/article/154590-rehabilitation-incorporating-a-stroke-efficiency-analysis-in-a-male-tennis-player-with-scapular-dyskinesis-a-case-report).

Como a disfunção escapular afeta o desempenho no tênis

A escápula é a “base” móvel do ombro: sua posição e movimento (rotação superior, inclinação posterior e protrusão/retração) determinam a eficiência da articulação glenoumeral. Disfunções na posição ou no controle da escápula podem causar:

  • Alteração do scapulohumeral rhythm (sequência entre escápula e úmero), reduzindo a eficiência do saque e de golpes de direita e esquerda;
  • Aumento da carga sobre os rotadores externos e no manguito rotador ao alcançar picos de rotação externa (fase de cocking);
  • Dor aguda ou crônica durante cocking, aceleração e follow-through;
  • Compensações na cadeia cinética (ex.: excesso de rotação lombar, over-uso do ombro contrário), que reduzem precisão e velocidade.

Para o tenista, isso se traduz em: perda de velocidade/eficácia do saque, sensação de instabilidade ou “travamento”, fadiga precoce e risco aumentado de lesões recorrentes.

Diagram of scapulohumeral rhythm phases

Diagnóstico: como avaliar a disfunção escapular em jogadores de tênis

A avaliação precisa é a base para um programa de reabilitação eficaz. Combine anamnese esportiva (volume semanal de saques, evolução da dor, histórico de lesões) com exame físico e análise técnica do saque.

Exames e testes úteis

Scapular Dyskinesis Test demonstration

  • Scapular Assistance Test (SAT) — o examinador facilita a rotação superior e inclinação posterior da escápula; se a dor diminui ou a amplitude melhora, a escápula contribui para os sintomas (descrição: https://www.physio-pedia.com/ScapularAssistanceTest).
  • Scapular Retraction Test (SRT) — o examinador segura a escápula em retração; ganho instantâneo de força ou redução da dor sugere influência escapular sobre a função (teste clássico descrito por Kibler).
  • Lateral Scapular Slide Test — mede diferenças de posição estática entre os lados.
  • Avaliação de comprimento do peitoral menor, mobilidade torácica e flexibilidade da cápsula posterior glenoumeral — limitações nestas áreas frequentemente acompanham a disfunção escapular.
  • Testes de força-isométrica e resistência dos estabilizadores: serratus anterior (serratus), trapézio médio e inferior, romboides e rotadores externos.

Análise técnica do saque

Vídeo em câmera lenta (lateral e frontal) é valioso para avaliar:

  • Sequência de cadeia cinética (pernas → quadril → tronco → ombro → antebraço);
  • Posição da escápula na fase de cocking (quando o ombro alcança rotação externa máxima);
  • Elementos de timing que aumentam a demanda escapular (ex.: ausência de separação quadril/ombro, toss inadequado);
  • Burrs técnicos que aumentam risco de carga excessiva no ombro.

Combinar exame físico e observação técnica permite construir hipóteses de tratamento e priorizar intervenções.

Programa de reabilitação em fases — guia prático para tenistas

Princípios gerais

  1. Controlar dor e inflamação inicialmente.
  2. Restaurar mobilidade global (tórax, ombro, cadeia posterior).
  3. Recrutar e readaptar os músculos estabilizadores da escápula (serratus anterior, trapézio inferior/médio, romboides).
  4. Progredir força e resistência específicas, incluindo exercícios excêntricos para rotadores externos.
  5. Integrar a técnica do saque com o treino de reabilitação (progresso gradual de volume e intensidade).

Observação: prescrições podem ser ajustadas conforme dor, tempo de prática e competição. Sempre priorize qualidade do movimento em vez de volume alto precoce.

Fase 1 — Controle de dor e ativação (0–2 semanas)

Objetivos: reduzir sintomas, restabelecer consciência escapular e iniciar ativação neuromuscular leve.

Exemplos de exercícios (2–3x/dia, intensidade baixa):

  • Scapular clock: sentado/ em pé, mover a escápula em pequenas direções (como horas de um relógio). 1–2 séries de 8–12 movimentos, foco em controle.
  • Serratus punches (com banda elástica leve): 3×12–15, movimento curto de protração, sem dor.

Serratus punches exercise for scapular rehabilitation

  • Isometrias de retração escapular (segurar retração por 5–10s): 3–5 repetições.
  • Mobilidade torácica em foam roller: 2–3 vezes por sessão, 1–2 minutos, movimentos controlados.
  • Alongamento do peitoral menor na porta ou com rolo: 30–60s, 2–3 vezes.

Indicações de progressão: diminuição da dor de repouso e melhora do controle sensório-motor da escápula.

Fase 2 — Força e controle motor (3–6 semanas)

Objetivos: reforçar serratus anterior, trapézio médio/inferior e rotadores externos; melhorar controle dinâmico durante movimentos elevados.

Exercícios (3x/semana):

  • Wall slides com banda (foco em posterior tilt e rotação): 3×10–15.
  • Prone Y e T (deitado de bruços em banco, levantar braços em Y e T): 3×10–12, foco em retração e depressão escapular.
  • Push-up plus (flexão com protrusão final do serratus): 3×8–12 — variante em parede ou inclinada para quem tiver dor; PB = push-up plus.
  • Theraband ER (rotação externa) em 0° e 90° de abdução: 3×12.
  • Drills de propriocepção com Bodyblade (oscilações curtas) ou exercício oscilatório: 45–60s x 3 séries (se tolerado).

Atenção: ajustar resistência elástica para prevenir substituições (usar forma correta em vez de carga alta).

Fase 3 — Força específica e resistência (7–10 semanas)

Objetivos: aumentar carga, resistência à fadiga e aproximar movimentos do gesto técnico.

Exercícios (3–4x/semana):

  • Rows unilaterais (remo) com foco em retração escapular explosiva e controle excêntrico: 3×8–12.
  • Serratus slide com bola/roll no tronco (progredir ângulo até 160°): 3×8–15.
  • Padrões PNF (D2 flexão/extensão em supino) — progressão conforme tolerância; utilizados no protocolo do case report do IJSPT (2026).
  • Programa excêntrico para rotadores externos (banda ou cabo): 3×8–10, enfatizar controle na fase de retorno.
  • Lançamentos pliométricos com medicine ball (chest pass, side throw) — iniciar com intensidade curta e distância reduzida, progredir gradualmente.

Meta desta fase: resistência para séries maiores de repetições (simular repetições de golpes em treino) sem perda de qualidade técnica.

Fase 4 — Integração com técnica e retorno ao jogo (10+ semanas)

Objetivos: reintegrar o saque real, controlar carga semanal e garantir execução técnica que minimize risco.

Protocolo prático de progressão de saques:

  • Shadow serving (sem bola): 20–50 repetições, atenção à escápula e à separação tronco-quadril.
  • Progressão de intensidade: 50% effort serves (20–30), 75% serves (20), 90% serves (10) — monitorar dor e qualidade técnica entre séries.
  • Hitting drills com recuperação entre séries (2–4 sets curtos) e aumento gradual do volume semanal.
  • Treino com treinador para ajustar toss, separação de quadril e sincronização do movimento.

Critérios objetivos para avançar de fase

  • Diminuição consistente da dor durante e após treino;
  • Recuperação e manutenção de padrão scapular observado em testes (SAT/SRT negativos ou melhorados);
  • Força e resistência comparáveis (≥ 80%) com o lado contralateral em testes específicos;
  • Execução técnica do saque sem compensações visíveis em vídeo.

Red flags e quando encaminhar

  • Dor persistente ou aumento progressivo apesar do protocolo — encaminhar para imagem (ultrassom ou Ressonância) e avaliação ortopédica;
  • Instabilidade franca, perda de força rápida, ou déficits neurológicos — avaliação urgente.

Integração da análise de eficiência do golpe: SER/IRA aplicado ao tênis

O Stroke Efficiency Rating (SER) e o Injury Risk Assessment (IRA) são ferramentas registradas em relatos de caso que combinam análise técnica do golpe com a avaliação de risco de lesões. No case report do IJSPT (2026) a equipe usou SER/IRA para:

  • Pontuar checkpoints técnicos do saque (posição escapular no cocking, pico de rotação externa, timing de separação quadril/ombro);
  • Identificar quais desvios técnicos mais contribuíam para sobrecarga escapular;
  • Priorizar exercícios e modificações técnicas com feedback objetivo (vídeo slow-motion) e reavaliar progressivamente.

Como aplicar uma versão prática no clube

  1. Filmar o saque em alta velocidade (lateral e frontal).
  2. Definir 5–7 checkpoints (ex.: toss, separação quadril/ombro, pico de rotação externa, posição escapular no cocking, aceleração, follow-through).
  3. Criar um cartão de pontuação simples (0 = ideal, 1 = aceitável com correção, 2 = risco alto) e preencher para cada saque analisado.
  4. Priorizar correção de itens com pontuação 2 nas primeiras semanas da reabilitação; integrar exercícios que simulem o ajuste técnico.
  5. Reavaliar a cada 2–4 semanas e adaptar volume de treino conforme evolução.

A vantagem prática: transforma observações subjetivas em metas mensuráveis e facilita comunicação entre fisioterapeuta e treinador.

Caso real resumido (e o que esperar na prática)

No case report do IJSPT (2026) foi descrito um jovem tenista com 9 anos de prática e dor no saque associada a scapular dyskinesis. A intervenção multidisciplinar (fisioterapia específica + análise SER/IRA + ajuste técnico) resultou em:

  • Redução significativa da dor durante o saque em poucas semanas;
  • Melhora do controle da escápula e da ativação de serratus e trapézio inferior;
  • Retorno ao saque progressivo sem sintomas e com melhoria na eficiência técnica.

Resultados clínicos típicos (faixa esperada)

  • 4–8 semanas: redução da dor e ganho inicial de consciência e controle escapular;
  • 8–12 semanas: melhoria substancial de força e resistência dos músculos estabilizadores;
  • 10–16 semanas: retorno progressivo ao saque competitivo sem dor, se não houver lesão estrutural significativa.

Lembre-se: cada jogador é único — fatores como idade, volume de treino, presença de lesões estruturais prévias e qualidade do acompanhamento alteram o tempo de recuperação.

Prevenção e manutenção a longo prazo (rotina prática)

  • Aquecimento específico: inclua 8–12 minutos de exercícios de ativação (serratus punches, wall slides, band ER) antes de treinos intensos.
  • Controle de carga: evite picos bruscos no número de saques por semana; programe semanas de recuperação e variações de intensidade (periodização).
  • Técnica: manutenção do toss consistente, trabalho de separação quadril/ombro e exercícios de core para transferência eficiente de energia.
  • Flexibilidade e mobilidade: manutenção semanal da mobilidade torácica e alongamentos do peitoral.
  • Programa de manutenção: 2–3 sessões semanais de 10–15 minutos com exercícios de estabilidade escapular (push-up plus, serratus slides, rows leves).

Recomendações práticas para atletas e treinadores

  • Sincronize monitoramento técnico (vídeo) com plano de reabilitação — ajuste do saque pode reduzir a necessidade de semanas adicionais de fortalecimento;
  • Não adiantar volume de saques apenas por pressa de retorno — progrida por critérios funcionais (qualidade do movimento e ausência de dor);
  • Tenha comunicação direta entre fisioterapeuta e treinador para ajustar carga e implementar correções técnicas em treino;
  • Use testes simples (SAT e SRT) periodicamente para verificar se a escápula permanece fator contribuinte dos sintomas (links: SAT — https://www.physio-pedia.com/ScapularAssistanceTest).

Quando suspeitar de lesão estrutural e pedir exames

Se houver dor noturna persistente, perda de força progressiva, limitação muito acentuada da amplitude ou suspeita de lesão labral/ruptura do manguito rotador, encaminhe para imagem por ultrassom ou ressonância magnética e avaliação por especialista.

Mensagem final: retorno seguro ao tênis

A disfunção escapular é comum entre tenistas, mas muitas vezes respondível a um protocolo bem estruturado que combine reeducação muscular, progressão de força/resistência e análise técnica do saque. Ferramentas como o SER/IRA auxiliam a transformar observações em metas mensuráveis e a priorizar intervenções que diminuam a sobrecarga no ombro. Monitoramento contínuo, comunicação entre fisioterapeuta e treinador e progressão gradual da carga são as chaves para reduzir recidivas e manter o jogador competitivo sem dor.

Referências selecionadas e leituras recomendadas

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