Tennis leg é um termo consagrado no vocabulário médico-esportivo para descrever uma dor súbita e intensa na região posterior da perna — geralmente fruto de uma lesão do músculo gastrocnémio (mais frequentemente da cabeça medial) ou de lesões adjacentes que simulam o mesmo quadro. Apesar do nome, a lesão não se restringe ao tênis: ocorre em qualquer esporte que exija arrancadas rápidas, mudanças bruscas de direção ou saltos repetidos. No tênis, deslocamentos laterais rápidos, aproximação à rede e variações de ritmo tornam o jogador suscetível.

Tennis player calf strain injury

Nos adultos ativos, especialmente entre 30 e 50 anos, o chamado “tennis leg” é uma causa recorrente de dor aguda na panturrilha. A maioria dos casos é parcial e responde bem ao tratamento conservador — mas o reconhecimento precoce é essencial para evitar erros diagnósticos (como confundir com trombose venosa profunda (TVP)) e atrasos no retorno às quadras.

O que é, na prática, o “tennis leg”?

Anatomicamente, o termo descreve tipicamente uma ruptura aguda do gastrocnémio (músculo da panturrilha) — frequentemente localizada na junção entre o ventre muscular e a aponeurose/tendão. O gastrocnémio tem duas cabeças (medial e lateral); a cabeça medial é a mais comumente lesionada neste mecanismo. Em alguns relatos, a ruptura do músculo plantaris (uma estrutura fina e vestigial) também causa quadro semelhante, mas estudos de imagem mostram que a lesão do gastrocnémio/soleus é bem mais frequente do que a do plantaris (Radiol Case Rep; PMCID: PMC5310238) [https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28228893/].

Tennis leg anatomy sagittal illustration

Além disso, até 10% dos casos com dor aguda de panturrilha investigados inicialmente como “tennis leg” podem corresponder, na verdade, a trombose venosa profunda (TVP) — daqui a importância de investigação quando os sinais clínicos não são típicos ou há fatores de risco vasculares [https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28228893/].

Causas principais em tenistas

  • Contração excêntrica súbita do gastrocnémio durante arrancadas, mudanças de direção ou saltos; esse alongamento sob carga é o fator mecânico mais comum.
  • Aquecimento inadequado ou início de jogo/trabalho intenso com músculos frios.
  • Fadiga acumulada, que diminui a capacidade de absorção de carga pelo músculo.
  • Desequilíbrios musculares (ex.: fraqueza de cadeia posterior, isquiotibiais ou glúteos) que sobrecarregam a panturrilha.
  • Superfícies e calçados: quadras duras e tênis com amortecimento insuficiente aumentam o estresse.
  • Histórico prévio de lesões na panturrilha ou encurtamento crônico do complexo tríceps sural.

Esses fatores combinados — técnica, preparação física e condições externas — explicam porque tanto amadores quanto profissionais podem ter o problema, embora a incidência aumente com a idade e perda de flexibilidade.

Como identificar: sintomas e diagnóstico

Sinais e sintomas mais frequentes:

  • Dor súbita e intensa na região posterior da perna, frequentemente descrita como um “estalo”, uma pancada ou sensação de ser atingido por um objeto.
  • Sensação de queda instantânea da força para empurrar o pé (dificuldade em ficar na ponta do pé).
  • Inchaço localizado e, nas horas/dias seguintes, hematoma subcutâneo na panturrilha (ecchymosis) por contaminação sanguínea.
  • Dor à palpação do ventre muscular do gastrocnémio e dor ao esforço de flexão plantar resistida.

Exame físico e sinais diferenciais:

  • Teste de Thompson: útil para afastar ruptura do tendão de Aquiles — no tennis leg, o tendão de Aquiles costuma estar íntegro, e o teste normalmente é negativo.
  • Avaliação vascular: calor local, edema generalizado ou sinais sistêmicos exigem investigação de TVP.

Exames de imagem indicados:

  • Ultrassonografia (US): exame inicial preferido por ser dinâmico, acessível e capaz de localizar hematomas, lacerações parciais e medir a extensão da lesão. Estudos e revisões recentes reforçam o papel da US na avaliação e acompanhamento (Pedret et al., 2020 DOI: 10.1111/sms.13812).

  • Ressonância magnética (RM): indicada quando há dútiva diagnóstica, suspeita de lesão extensa ou quando se planeja intervenção cirúrgica. A RM define a extensão do edema, descontinuidade muscular e presença de hematoma com alta precisão [https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37029466/].

  • Doppler venoso: essencial quando existe suspeita de trombose venosa profunda — uma complicação que pode mimetizar a lesão muscular.

Fontes útis para leitura clínica: Radiopaedia (artigo “Tennis leg”) e revisões indexadas no PubMed. Exemplos: “Tennis leg”: gastrocnemius injury is a far more common cause than plantaris rupture (Radiol Case Rep) [https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28228893/] e revisão sobre imagem [https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37029466/].

Tratamento inicial e fases da reabilitação

Tratamento agudo (0–72 horas)

  • RICE adaptado: repouso relativo (evitar atividades que piorem a dor), aplicação de gelo intermitente (15–20 minutos a cada 2–3 horas nas primeiras 48–72h), compressão elástica e elevação da perna sempre que possível.
  • Analgesia: AINEs podem ser usados conforme orientação médica para controle da dor; cuidado com uso prolongado quando há grande hematoma.
  • Imobilização relativa: em lesões muito extensas, o médico pode indicar tala ou bota por curto período — decisão individualizada.

Fase subaguda (após 72 horas até 2–3 semanas)

  • Transição para mobilidade gradual, redução de inflamação e início de carga progressiva.
  • Fisioterapia com foco em mobilidade articular, controle da dor, reeducação do padrão de marcha e ganho de força isométrica inicial.

Fase de reabilitação funcional (semanas 2–12+)

  • Fortalecimento progressivo, com ênfase em exercícios excêntricos da panturrilha (importantes para reduzir risco de recidiva).
  • Trabalho de propriocepção, estabilidade do tornozelo e treino de cadeia posterior (isquiotibiais, glúteos).
  • Retorno gradual a atividades específicas do tênis: mudança de direção leve → movimentos laterais progressivos → sprints curtos e finalmente treino com bola.

Terapias adjuvantes

  • Terapias como compressão, drenagem linfática e modalidades eletrofísicas podem auxiliar. Injeções guiadas (ex.: corticosteroides) não são rotineiras para rupturas musculares agudas e devem ser avaliadas com cautela.

Cirurgia

  • Rara: indicada quando há ruptura extensa que compromete função e falha do tratamento conservador. Casos isolados de reparo do ventre do gastrocnémio foram descritos na literatura, mas a maioria dos atletas recupera com reabilitação não operatória [https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37029466/].

Tempo estimado de recuperação (variável individualmente)

  • Lesões leves (distensão parcial): retorno gradual em 2–6 semanas com reabilitação adequada.
  • Lesões moderadas: 6–12 semanas.
  • Lesões extensas/que exigem cirurgia: vários meses, com retorno ao esporte entre 3–6 meses dependendo da recuperação funcional e da carga do treino.

Observação: tempos são aproximados — a progressão deve ser guiada por sintomas, força e avaliação do fisioterapeuta/médico do esporte.

Estratégias práticas para prevenção (amadores e profissionais)

Prevenir um tennis leg é trabalhar técnica, condicionamento e rotina de preparação. A seguir, medidas objetivas e aplicáveis:

1) Aquecimento progressivo e específico

  • 10–15 minutos antes de treino/jogo: trote leve → mobilidade de tornozelo e cadeia posterior → exercícios de ativação (saltos leves, skipping, sprints curtos progressivos). Evitar sprints máximos sem aquecimento adequado.

2) Fortalecimento e equilíbrio muscular

  • Incluir programa regular (2–3x/semana) com foco em exercícios excêntricos da panturrilha, fortalecimento de isquiotibiais e glúteos e trabalho de core. O fortalecimento excêntrico reduz risco de lesões musculares em diversos grupos musculares.

3) Trabalho de técnica e mecânica de deslocamento

  • Treinar mudanças de direção com base estável, manter centro de gravidade baixo e usar técnica adequada de empurrar o solo (reduzir movimentos de estiramento inesperado da panturrilha).

4) Controle de carga e recuperação

  • Evitar picos súbitos de intensidade e volume. Programar microciclos com variação de carga e dias de recuperação ativa.

5) Flexibilidade e manutenção da mobilidade

  • Alongamentos dinâmicos antes e alongamentos suaves/associados a força após treinos; evitar alongamento estático agressivo com músculos frios.

6) Calçados e superfície

  • Usar tênis com bom suporte e amortecimento; avaliar sola e características conforme tipo de quadra. Em treinos intensos em quadras duras, reduzir volume de treinos de impacto consecutivos.

Organizações esportivas e guias de prevenção (ex.: ITF) e revisões clínicas reforçam esses princípios; programas de prevenção específicos para tenistas devem combinar força, mobilidade e técnica.

Exercícios práticos para fortalecer a panturrilha (protocolos e progressão)

Calf strain rehabilitation exercises for tennis leg

1) Elevação de gêmeos em pé (bilateral)

  • Execução: subir na ponta dos pés e descer controlado.
  • Séries: 3 x 12–15. Progredir carga com pesos.

2) Elevação unilateral com controle excêntrico

  • Execução: subir com apoio bilateral e descer lentamente (3–5s) na perna treinada.
  • Séries: 3 x 8–12. Excelente para trabalho excêntrico.

3) Saltos reativos de baixa amplitude (pogo jumps)

  • Execução: saltos verticais curtos, mantendo tornozelo ativo e ciclo rápido de alongamento-encurtamento.
  • Séries: 3 x 20–30 segundos. Começar sem carga e progredir conforme tolerância.

4) Step-down excêntrico

  • Execução: subir num degrau com ambos os pés e descer de forma controlada com a perna alvo, enfatizando descida lenta.
  • Séries: 3 x 8–12.

5) Deadlift romeno leve e exercícios de cadeia posterior

  • Execução: movimentos que reforçam isquiotibiais e glúteos, reduzindo sobrecarga isolada na panturrilha.
  • Séries: 3 x 8–12; técnica priorizada.

6) Propriocepção e deslocamentos laterais com cones/escada

  • Execução: exercícios específicos de agilidade e relevo lateral, progressão de velocidade e amplitude.
  • Frequência: 2–3x por semana.

Dicas gerais: aumentar carga gradualmente, monitorar dor (evitar exercícios que provoquem dor aguda) e reavaliar com fisioterapeuta em caso de dúvidas.

Aquecimento prático antes da partida: checklist de 10–15 minutos

  • 3–5 min: trote leve ou skipping.
  • 3–5 min: mobilidade do tornozelo, alongamentos dinâmicos da panturrilha e cadeias posteriores.
  • 3–5 min: progressão de sprints curtos, deslocamentos laterais e mudanças de direção em intensidade crescente.
  • 1–2 min: alguns golpes leves e aproximações à rede para simular esforços específicos.

Durante o jogo, use intervalos para mobilidade ativa e hidratação. Controle a fadiga: quando a técnica cai, o risco de lesão aumenta.

Quando procurar atendimento médico imediatamente

Procure avaliação urgente se:

  • Houver incapacidade clara de apoiar o pé ou dor muito intensa imediata.
  • Houver edema progressivo, calor local, dor que não muda com descanso — sinais que podem indicar trombose venosa profunda (Doppler urgente).
  • Hematoma extenso que se espalha rapidamente pela panturrilha.
  • Ausência de melhora após 7–10 dias de tratamento conservador bem conduzido.

Em casos de dútiva diagnóstica, exames de imagem (US ou RM) e avaliação por médico do esporte ou ortopedista são essenciais.

Referências e leitura adicional (selecionadas)

Atenção: os links acima direcionam para fontes internacionais e revisões científicas. Para orientação individualizada, sempre consulte um médico do esporte ou fisioterapeuta.

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