Naomi Osaka sempre foi uma campeã construída para o piso duro. Quatro títulos de Grand Slam conquistados entre Melbourne e Nova York, dois Australian Opens e dois US Opens — e nenhum deles na grama. Durante anos, a grama de Wimbledon foi seu ponto fraco, o lugar onde sua potência encontrava uma superfície que não perdoa. No domingo, 5 de julho de 2026, tudo mudou. Osaka, cabeça de chave número 14, derrotou a número 1 do mundo Aryna Sabalenka por 6-2, 7-6(2) na quarta rodada, alcançando as quartas de final do All England Club pela primeira vez na carreira.

A noite em que Osaka calou Centre Court

A partida começou com Osaka ditando o ritmo. Ela quebrou o saque de Sabalenka no terceiro game com uma winners de backhand cruzado e nunca mais olhou para trás. O primeiro set foi dominado com autoridade: 6-2, com Osaka mantendo uma alta porcentagem de primeiros saques e limitando as oportunidades de Sabalenka se firmar nas trocas. O segundo set foi mais apertado. Sabalenka salvou break points e forçou um tiebreak, mas uma sequência de erros não-forçados da bielorrussa entregou a vitória a Osaka por 7-2 no desempate.

Foi a primeira vitória de Osaka sobre uma número 1 do mundo desde que derrotou Ash Barty em Pequim em 2019. Foi também sua primeira vitória contra uma top-10 em uma superfície que não fosse o piso duro. Sabalenka, que havia vencido os três confrontos anteriores entre elas em 2026 — incluindo uma vitória em sets diretos em Roland Garros — não perdia em sets diretos em um Grand Slam desde o US Open de 2020.

"Faz muito tempo que não me divirto tanto em quadra", disse Osaka após a partida. "E fazer isso aqui, significa muito."

Uma sequência histórica quebrada

A derrota de Sabalenka foi mais do que uma zebra isolada. A bielorrussa de 28 anos viu sua impressionante sequência de 14 Grand Slams consecutivos chegando às quartas de final chegar ao fim. Sua invencibilidade em tiebreaks em majors — 21 vitórias consecutivas — também caiu diante de Osaka. Sabalenka, campeã de quatro títulos majors, todos no piso duro, segue sem passar das semifinais em Wimbledon.

"Sem emoções", disse Sabalenka aos repórteres. "Só sei que posso lidar comigo mesma muito melhor do que no ano passado. Provavelmente vou dar respostas curtas. Eu estraguei tudo este ano. No ano que vem, tentarei um pouco melhor."

O renascimento de uma campeã na grama

Osaka sempre lutou na grama. Em toda a sua carreira antes de 2026, ela havia vencido apenas cinco partidas em Wimbledon. Sua melhor campanha anterior havia sido a terceira rodada. Mas algo mudou nesta temporada. Na semana anterior a Wimbledon, Osaka chegou à final do torneio de Bad Homburg, na grama, antes de se retirar com uma lesão no pé. Apesar do contratempo físico, ela parecia afiada e poderosa contra Sabalenka.

Sua preparação, que contou com a colaboração de Tomasz Wiktorowski — ex-técnico de Iga Swiatek —, parece estar dando frutos. Osaka está mais baixa nos joelhos durante o split-step, chegando meia bola mais cedo — e na grama, essa fração de segundo faz toda a diferença.

O chaveamento feminino em aberto

Com a vitória de Osaka, o cenário do tênis feminino em Wimbledon 2026 ficou ainda mais imprevisível. As três primeiras cabeças de chave estão eliminadas: Iga Swiatek (perdeu para a filipina Alex Eala), Elena Rybakina e Aryna Sabalenka. Jessica Pegula, cabeça 4, é a seed mais alta restante na chave.

Na terça-feira, Osaka enfrentará Karolina Muchova nas quartas de final. A tcheca eliminou a campeã de 2024, Barbora Krejcikova, em três sets (7-5, 5-7, 6-3). Será a primeira vez que Osaka enfrenta Muchova desde a final de Bad Homburg, na qual Osaka se retirou.

Do outro lado da chave, um confronto 100% americano: Coco Gauff contra Jessica Pegula. Gauff, que também alcançou sua primeira quartas de final em Wimbledon, venceu Belinda Bencic em uma partida que terminou minutos antes do toque de recolher das 23h. "Estou muito feliz por finalmente estar nas quartas", disse Gauff. "Não sei quantas tentativas foram."

Um novo capítulo para o tênis feminino

Wimbledon terá uma nona campeã inédita consecutiva — e uma décima campeã diferente em dez anos. A última mulher a repetir o título foi Serena Williams, em 2015-16. O domínio variado do tênis feminino reflete uma era de competitividade aberta, e Osaka, que já foi número 1 do mundo por 25 semanas, surge como uma das candidatas mais interessantes.

O estilo que roubou a cena

Fora das quadras, Osaka continuou fazendo história com seu estilo. Para sua estreia em Wimbledon, ela entrou em quadra usando um kimono branco com bordados intrincados, inspirado na personagem O-Ren Ishii de Lucy Liu no filme Kill Bill, de Quentin Tarantino. Foi o terceiro Grand Slam consecutivo em que Osaka fez uma entrada fashion marcante: em Melbourne, usou um chapéu gigante decorado com borboletas; em Roland Garros, um espartilho preto com saia dourada.

"Minha herança japonesa significa muito para mim", disse Osaka. "Dizem que é tudo branco em Wimbledon, e pensei que seria muito legal sair de kimono. Adoro a personagem da Lucy Liu em Kill Bill, e sempre digo que gosto de ser como um personagem de videogame às vezes."

O caminho adiante

As quartas de final contra Muchova serão o próximo teste definitivo para a nova versão de Osaka na grama. Muchova, finalista de Roland Garros em 2023, é uma jogadora versátil que já provou ser perigosa em todas as superfícies. Se Osaka conseguir manter o nível de agressividade e a movimentação que apresentou contra Sabalenka, terá uma chance real de avançar às semifinais — ou mais.

Independentemente do que acontecer, Osaka já respondeu à pergunta que pairou sobre seu retorno desde que voltou da licença-maternidade em 2024. Ela pode competir — genuinamente competir — na grama. E isso, para uma campeã que muitos diziam ser unidimensional, é talvez a maior vitória de todas.